sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A delicadeza encontrada

Algum tempo atrás, uma atriz conhecida, quando perguntada sobre o que faltava no mundo, respondeu com convicção: delicadeza. A resposta parece ser um tanto frívola e feminina, para os que não conseguem assimilar a abrangência do termo delicadeza. Delicadeza não tem a ver com movimentos suaves e traquejo social (muito embora isso tudo seja bem-vindo). Tudo o que há de civilizado é revestido de delicadeza; e ser delicado muito depende do contexto.

Há diversos termos equivalentes, que também se aplicam: educação, cortesia, elegância, gentileza. Quase todos convergem para um mesmo ponto, bem como quase todos são interpretados de maneira equivocada. Muitas pessoas confundem delicadeza com protocolo, formalidade. E em um país amarrado no meio da burocracia, esta confusão perpetua o desarranjo social causado por cada um, mas do qual todos (dizem que) adorariam escapar.

Na necessidade de adquirir uma postura altiva diante do coletivo, algumas pessoas tropeçam no egocentrismo, ainda que em pequenos gestos. A competitividade tornou os indivíduos pouco afeitos à cooperação, mesmo quando todos só teriam a ganhar. A hegemonia do eu impede qualquer ação cujo único resultado seja um momento agradável e sem fins lucrativos.

Seria de muita utilidade haver aulas de delicadeza nas escolas. Ou de qualquer coisa que fosse equivalente. A tal cidadania, já mastigada de tanto que vive na boca das pessoas, é apenas um dos efeitos da delicadeza. Quem age educadamente, jamais vai sujar o espaço público ou alheio, ou gerar mais poluição do que o necessário. Poluição física, visual e sonora. Depredação do que quer que seja não está dentro de nenhum padrão de cortesia. Roubo, violência, corrupção, nada disso tem lugar em um ambiente onde se almeja a elegância.

Bastante elegante, outrossim, é usar do bom senso, em vez de seguir padrões rígidos, e querer que os outros também o façam. Além de presumir que todos agem da mesma forma — sinal de ignorância —, pessoas intolerantes tendem a oprimir aqueles que não têm condições de se defender. Covardia, definitivamente, não é uma coisa delicada.

Para quem acha que é ótimo evoluir, estar na moda, há que abandonar uma série de itens obsoletos. É mais barato e mais chique que roupa de grife. Coisas do século passado, que sobrevivem a todas as intempéries: machismo, homofobia, racismo, além de roupas feitas de carcaças de animais mortos. Tudo o que representa sofrimento é demodé, está out. Bem como os estrangeirismos desnecessários. Cafona demais.

Se crimes delicados existem, eles não causam mais dor do que a necessária.

A arte de ser gentil reside na sutileza. Estar atento às reações. Bajulação é o oposto da elegância. Nada mais enfadonho do que o excesso de mesuras e salamaleques, quando o que se deseja é privacidade, por exemplo. A única regra é evitar constranger o outro. Delicado é ter sensibilidade. E entender que o demasiado sobra.

A delicadeza não é uma bandeira a ser levantada. Bandeiras são símbolos que remetem a outra coisa. Para aderir a ela, não é preciso falar sobre. Neste caso, agir é mais fácil do que falar. Ou ainda: não agir. Não jogar lixo no chão, não fazer barulho em locais destinados à concentração, refletir antes de falar. Não fazer com o outro o que não quer para si. Por gentileza.