quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Aznavour, Madonna e o meu tempo

ou
Les plaisirs démodés
ou
Meu tempo era quando


Aracaju, 22 de setembro de 2008 d. C.


Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que os taxistas têm um quê de repórter. Perguntam seu itinerário, não só para saber o destino da viagem de carro, mas também para colher informações que rendam uma boa conversa.

A última vez em que estive lá, o senhor que dirigia declarou-se um chofer recente. Para meu espanto, cerca de dois anos antes, trabalhava ele com logística na Aeronáutica. Não entrei em detalhes sobre isso, mas eu também lhe causei surpresa, ao dizer o objetivo da minha viagem: ia assistir ao espetáculo do cantor Charles Aznavour. Ele, com ar de profundo estranhamento, respondeu-me que não era do meu tempo. Pra ele, eu estava na idade era de ir ver Madonna.

Sorri indulgente com o comentário, pois não foi a primeira, nem a última vez que eu escutei algo assim. É preciso esclarecer. O diálogo que acabo de contar aconteceu entre o tal motorista e uma moça de vinte e poucos anos, a que vos escreve. Pois é, nasci na década de 1980. Segundo o manual, eu deveria gostar de Xuxa, ou de Guns´n´Roses. Ou de João Penca & seus Miquinhos Amestrados, ou de Chitãozinho e Xororó. De qualquer coisa do meu tempo. Principalmente de Madonna.

Parece até que o motorista adivinhou. Meus amigos estão frenéticos, à espera do tal show. Duas colegas de trabalho na agência de publicidade, um dia depois da minha volta do Rio, dialogam na minha frente. Ambas, empolgadas com os planos, discutem o motivo de eu não ir junto. A primeira chega à conclusão de que minha "Madonna" é Aznavour, enquanto a outra nem tem notícia de quem seja o cantor. A primeira diz que ele é o “Roberto Carlos” da França. Então, tento eu explicar o quão famoso é o artista, ainda hoje. Cito algumas canções que ela pode conhecer através de filmes do nosso tempo: "Sabe a trilha sonora de Notting Hill? She? Pois então. É dele." Ao fim da breve apresentação, ela não se dá por satisfeita. Diz que seria mais lucro viajar para ver Madonna. Afinal, ele nem é do meu tempo.

Passei pela infância viajando através de livros e discos. Porque, para a minha sorte, a tecnologia também trouxe coisas boas. As gravações e arquivos mais sofisticados são a salvação dos anacrônicos crônicos, como eu. Sou do tempo de Chaplin. Meu pai me deixava ficar acordada até tarde no domingo, para assistir aos filmes dele, depois do Fantástico. São os meus preferidos até hoje. Também do meu tempo são Piaf, Clara Nunes, Chico Buarque, Nat King Cole, Luiz Gonzaga e Beatles. Sei que meu gosto por estes artistas nasceu bem cedo, porque eram os vinis que eu tinha à mão — porque naquele tempo ainda havia disco de vinil. No meu tempo.

A coisa do ‘meu tempo’, na minha cabeça, deveria ser aquela que impregna meus dias. Uma música, um livro, um cheiro, um gosto que me transporte para dentro de mim mesma, como se a minha própria existência fizesse mais sentido encaixada em um cenário. Eu sou do tempo de Vinicius, Drummond e Clarice. E de Monteiro Lobato. E também na minha época, mulher era pra ser tratada com doçura, com flores. Os homens do meu tempo abriam a porta do carro, tiravam a gente para dançar, puxavam a cadeira para sentar, pagavam a conta. E isso não transformava mulher nenhuma em inválida. Pelo contrário.

Também no meu tempo, a gente podia sair de casa para bater papo, apenas, sem precisar ir a lugares barulhentos. Picolé de fruta comprado por centavos, deitar na grama de parque público, matar aula na faculdade pra ir à praia. E fazer faxina em casa, ouvindo samba de Adoniran Barbosa, Ataulfo Alves, Noel Rosa. Mas se o dia fosse menos romântico, a arrumação podia ser ao som do Créu. Dependendo da quantidade de poeira, a gente podia ouvir Timbalada (aí as pessoas aquiescem: “Isso sim é do seu tempo!”).

Na aurora da minha vida, não tão infância, mas ainda querida, era comum ser eclético. A gente podia gostar do que desse na telha. Dar na telha é bem do meu tempo. E já que posso conhecer essas coisas, e me é reservado o direito — porque tive a sorte de não passar pelo período da censura —, escolho ser multitemporal. Pena que alguns menores de vinte não podem mais. Ai que saudades.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

A delicadeza encontrada

Algum tempo atrás, uma atriz conhecida, quando perguntada sobre o que faltava no mundo, respondeu com convicção: delicadeza. A resposta parece ser um tanto frívola e feminina, para os que não conseguem assimilar a abrangência do termo delicadeza. Delicadeza não tem a ver com movimentos suaves e traquejo social (muito embora isso tudo seja bem-vindo). Tudo o que há de civilizado é revestido de delicadeza; e ser delicado muito depende do contexto.

Há diversos termos equivalentes, que também se aplicam: educação, cortesia, elegância, gentileza. Quase todos convergem para um mesmo ponto, bem como quase todos são interpretados de maneira equivocada. Muitas pessoas confundem delicadeza com protocolo, formalidade. E em um país amarrado no meio da burocracia, esta confusão perpetua o desarranjo social causado por cada um, mas do qual todos (dizem que) adorariam escapar.

Na necessidade de adquirir uma postura altiva diante do coletivo, algumas pessoas tropeçam no egocentrismo, ainda que em pequenos gestos. A competitividade tornou os indivíduos pouco afeitos à cooperação, mesmo quando todos só teriam a ganhar. A hegemonia do eu impede qualquer ação cujo único resultado seja um momento agradável e sem fins lucrativos.

Seria de muita utilidade haver aulas de delicadeza nas escolas. Ou de qualquer coisa que fosse equivalente. A tal cidadania, já mastigada de tanto que vive na boca das pessoas, é apenas um dos efeitos da delicadeza. Quem age educadamente, jamais vai sujar o espaço público ou alheio, ou gerar mais poluição do que o necessário. Poluição física, visual e sonora. Depredação do que quer que seja não está dentro de nenhum padrão de cortesia. Roubo, violência, corrupção, nada disso tem lugar em um ambiente onde se almeja a elegância.

Bastante elegante, outrossim, é usar do bom senso, em vez de seguir padrões rígidos, e querer que os outros também o façam. Além de presumir que todos agem da mesma forma — sinal de ignorância —, pessoas intolerantes tendem a oprimir aqueles que não têm condições de se defender. Covardia, definitivamente, não é uma coisa delicada.

Para quem acha que é ótimo evoluir, estar na moda, há que abandonar uma série de itens obsoletos. É mais barato e mais chique que roupa de grife. Coisas do século passado, que sobrevivem a todas as intempéries: machismo, homofobia, racismo, além de roupas feitas de carcaças de animais mortos. Tudo o que representa sofrimento é demodé, está out. Bem como os estrangeirismos desnecessários. Cafona demais.

Se crimes delicados existem, eles não causam mais dor do que a necessária.

A arte de ser gentil reside na sutileza. Estar atento às reações. Bajulação é o oposto da elegância. Nada mais enfadonho do que o excesso de mesuras e salamaleques, quando o que se deseja é privacidade, por exemplo. A única regra é evitar constranger o outro. Delicado é ter sensibilidade. E entender que o demasiado sobra.

A delicadeza não é uma bandeira a ser levantada. Bandeiras são símbolos que remetem a outra coisa. Para aderir a ela, não é preciso falar sobre. Neste caso, agir é mais fácil do que falar. Ou ainda: não agir. Não jogar lixo no chão, não fazer barulho em locais destinados à concentração, refletir antes de falar. Não fazer com o outro o que não quer para si. Por gentileza.