Outro dia, saí de casa para comprar flores. Fui em direção ao centro da cidade, os olhos ávidos de beleza, sem hora para voltar. É um dos meus prazeres secretos (agora nem tanto): ser anônima, para poder observar as pessoas entretidas. Sorrir para desconhecidos. Observar os transeuntes e adivinhar os desejos de cada um é uma espécie de festa íntima. O homem é um bicho cheio de atrativos, para quem sabe apreciar. Sinto uma ternura tão grande por ele que chego a não pensar nos horrores de que é capaz.
Chegando ao mercado, esqueci-me das flores. Minha liberdade, de repente, tornou-se amarga. Mesmo que eu saiba o que vou encontrar, sempre acabo deprimida, quando chego perto daquelas pequenas lojas, onde se vendem animais. São aves, gatos, cães, coelhos e outros roedores, alojados em gaiolas pequenas, em uma disposição assustadora, se a gente se colocar no lugar deles. Entre os bichos que estavam nesse dia, havia um cãozinho em especial, que não me sai do pensamento desde então. Ele estava preso, sozinho, no escuro, abafado, no calor do meio-dia. Gania sem parar, como que desesperado, esperando que alguém fosse em seu socorro. Nem o inferno descrito por Dante consegue criar as atmosferas que o homem, sem o menor pudor, proporciona às outras espécies. E aquelas lojas de que falo são apenas uma amostra das atrocidades de que os bichos são vítimas.
Pelo que sabemos da História, quase sempre houve abuso de poder do ser humano sobre seus semelhantes. Diversas lutas foram travadas para que alguns povos deixassem de subjugar outros. Acredita-se, porém, que evoluímos culturalmente; aprendemos que todos têm direito a viver sem sofrer abusos. E todos parecem concordar que dispor da vida de outrem é vil. Para assegurar que a vida humana seja respeitada, existem leis que a defendem. Em nosso meio, a escravidão foi (oficialmente) abolida, porque a crueldade não nos causa orgulho. Mas fazer isso com criaturas que não podem protestar é completamente aceitável.
Para ficar de bem com a própria consciência, argumenta-se que os animais não pensam, por isso não sofrem. Até onde me lembro, nunca precisei raciocinar verbalmente para ter medo, fome, frio, calor, dor, solidão. Há várias formas de sofrer, e nem todas elas passam pela sofisticação do raciocínio. Quem possui animais de estimação acredita que eles pensam, têm sentimentos e até mesmo virtudes. Por que, então, eles podem ser vítimas de maus-tratos? E quem defende seu bichinho em casa, por que não estende esses direitos a outros seres, que são tão sensíveis quanto ele?
Animais não sofrem abusos apenas em alojamentos precários. Eles são vítimas de indústrias riquíssimas, subsidiadas por cada um de nós, em números cada vez maiores. Sim, porque além dos animais de que se alimenta a maior parte da população, eles são cobaias de experimentos absurdos e desnecessários, na maioria dos casos. E mesmo quem não come carne (e carne aqui inclui frango, peixe, tudo mais que sofre) alimenta a exploração de seres que vivem em condições desumanas. Ironicamente. Pois nem a mais carnívora das feras é capaz de manter sua presa em um cubículo, superalimentando-a, para poder abatê-la ainda jovem, depois de uma vida miserável e dolorosa, como fazem os seres humanos.
Quem diz que tudo isso é exagero e sentimentalismo, provavelmente nunca foi a um abatedouro, ou visitou os lugares onde são criados os animais que vão lhe servir de alimento. Ou não procurou saber como são feitos testes de laboratório, nem testemunhou o procedimento de retirar a pele de mamíferos para fazer casacos. Muitos desses animais permanecem vivos e conscientes enquanto são esfolados, expostos a substâncias nocivas, queimados, retalhados. Às vezes, criaturas tão inteligentes ou mais do que o cachorrinho ou o gatinho que temos em casa. Não há qualquer garantia de que elas tenham uma vida ao menos parecida com o que seria natural. E nós, os seres superiores, dizemos que amamos os animais.
O mundo é cheio de contrastes. Existem os homens que realmente não se importam. Existem os que sentem culpa (entre os quais eu me incluo), mas tentam esquecer, para conseguir dormir à noite. E há aqueles que não se acostumaram com a dor do outro e lutam. Uma minoria que, além de tentar não consumir nenhum produto que implique sofrimento animal, protesta e divulga os crimes de que somos todos cúmplices. E têm a esperança de que, no futuro, o homem seja mais humano. Ou mais animal. Especialmente a eles, os que não se acomodam diante da injustiça, eu dedico a ternura que sinto. E as flores, que ficaram esquecidas.
Chegando ao mercado, esqueci-me das flores. Minha liberdade, de repente, tornou-se amarga. Mesmo que eu saiba o que vou encontrar, sempre acabo deprimida, quando chego perto daquelas pequenas lojas, onde se vendem animais. São aves, gatos, cães, coelhos e outros roedores, alojados em gaiolas pequenas, em uma disposição assustadora, se a gente se colocar no lugar deles. Entre os bichos que estavam nesse dia, havia um cãozinho em especial, que não me sai do pensamento desde então. Ele estava preso, sozinho, no escuro, abafado, no calor do meio-dia. Gania sem parar, como que desesperado, esperando que alguém fosse em seu socorro. Nem o inferno descrito por Dante consegue criar as atmosferas que o homem, sem o menor pudor, proporciona às outras espécies. E aquelas lojas de que falo são apenas uma amostra das atrocidades de que os bichos são vítimas.
Pelo que sabemos da História, quase sempre houve abuso de poder do ser humano sobre seus semelhantes. Diversas lutas foram travadas para que alguns povos deixassem de subjugar outros. Acredita-se, porém, que evoluímos culturalmente; aprendemos que todos têm direito a viver sem sofrer abusos. E todos parecem concordar que dispor da vida de outrem é vil. Para assegurar que a vida humana seja respeitada, existem leis que a defendem. Em nosso meio, a escravidão foi (oficialmente) abolida, porque a crueldade não nos causa orgulho. Mas fazer isso com criaturas que não podem protestar é completamente aceitável.
Para ficar de bem com a própria consciência, argumenta-se que os animais não pensam, por isso não sofrem. Até onde me lembro, nunca precisei raciocinar verbalmente para ter medo, fome, frio, calor, dor, solidão. Há várias formas de sofrer, e nem todas elas passam pela sofisticação do raciocínio. Quem possui animais de estimação acredita que eles pensam, têm sentimentos e até mesmo virtudes. Por que, então, eles podem ser vítimas de maus-tratos? E quem defende seu bichinho em casa, por que não estende esses direitos a outros seres, que são tão sensíveis quanto ele?
Animais não sofrem abusos apenas em alojamentos precários. Eles são vítimas de indústrias riquíssimas, subsidiadas por cada um de nós, em números cada vez maiores. Sim, porque além dos animais de que se alimenta a maior parte da população, eles são cobaias de experimentos absurdos e desnecessários, na maioria dos casos. E mesmo quem não come carne (e carne aqui inclui frango, peixe, tudo mais que sofre) alimenta a exploração de seres que vivem em condições desumanas. Ironicamente. Pois nem a mais carnívora das feras é capaz de manter sua presa em um cubículo, superalimentando-a, para poder abatê-la ainda jovem, depois de uma vida miserável e dolorosa, como fazem os seres humanos.
Quem diz que tudo isso é exagero e sentimentalismo, provavelmente nunca foi a um abatedouro, ou visitou os lugares onde são criados os animais que vão lhe servir de alimento. Ou não procurou saber como são feitos testes de laboratório, nem testemunhou o procedimento de retirar a pele de mamíferos para fazer casacos. Muitos desses animais permanecem vivos e conscientes enquanto são esfolados, expostos a substâncias nocivas, queimados, retalhados. Às vezes, criaturas tão inteligentes ou mais do que o cachorrinho ou o gatinho que temos em casa. Não há qualquer garantia de que elas tenham uma vida ao menos parecida com o que seria natural. E nós, os seres superiores, dizemos que amamos os animais.
O mundo é cheio de contrastes. Existem os homens que realmente não se importam. Existem os que sentem culpa (entre os quais eu me incluo), mas tentam esquecer, para conseguir dormir à noite. E há aqueles que não se acostumaram com a dor do outro e lutam. Uma minoria que, além de tentar não consumir nenhum produto que implique sofrimento animal, protesta e divulga os crimes de que somos todos cúmplices. E têm a esperança de que, no futuro, o homem seja mais humano. Ou mais animal. Especialmente a eles, os que não se acomodam diante da injustiça, eu dedico a ternura que sinto. E as flores, que ficaram esquecidas.